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Vírus da febre amarela passou por mutação inédita no Brasil, afirma Fiocruz

Alterações no genoma viral em macacos podem ter impactos para a saúde pública

Agência O Globo

Motivo de preocupação e medo desde o fim do ano passado, quando começou a infectar e matar pessoas em Minas Gerais, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, o vírus da febre amarela em circulação no país atualmente está diferente dos que andavam antes não só por aqui como no resto do mundo. É o que mostra o primeiro sequenciamento completo do genoma de exemplares do micro-organismo, obtidos de dois macacos bugios (da espécie Alouatta clamitans) enquanto agonizavam com a doença no Espírito Santo no fim de fevereiro passado, realizado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

Segundo os cientistas, o vírus do surto atual no Brasil apresenta oito mutações nunca antes relatadas na literatura científica nessa linhagem. Nada, porém, que deva afetar a eficácia da vacina usada no país. Isto porque sete destas alterações estão reunidas em duas partes do genoma do micro-organismo ligadas ao seu processo de replicação, enquanto as vacinas aplicadas hoje, feitas com o vírus atenuado, usam estruturas em seu chamado envelope proteico, ou seja, sua parte externa, para estimular a resposta protetora do sistema imunológico. Já a oitava mutação está em região relacionada à montagem o capsídeo do vírus, isto é, da estrutura que guarda seu material genético no interior do envelope.

"Estas alterações estão agrupadas principalmente em domínios funcionais, e não estruturais, do vírus, então é muito pouco provável que afetem a eficácia da vacina", explica Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC e uma das coordenadoras do estudo, publicado na revista científica “Memórias do Instituto Oswaldo Cruz”. — A vacina tem como alvo o envelope viral, e este está preservado destas mutações. Ela é administrada há 80 anos e é muito eficaz, capaz de proteger de maneira semelhante contra qualquer das linhagens do vírus espalhadas pelo mundo. Isso não é para ser motivo de preocupação. A vacina continua sendo a principal forma que temos de impedir a infecção pelo vírus da febre amarela.

Impactos ainda desconhecidos

Os cientistas, no entanto, ainda não sabem que impactos estas mutações podem ter nos ciclos de vida, transmissão e infecção do vírus. Por se concentrarem em áreas relacionadas à sua replicação, eles suspeitam que as alterações podem influenciar sua dispersão na natureza, concentração no organismo e na saliva dos mosquitos e até mesmo a agressividade da doença nas suas vítimas, sejam macacos ou pessoas. Mas para saber isso ainda serão necessárias mais pesquisas, já em planejamento tanto pelos integrantes da Sala de Situação para Febre Amarela Silvestre criada pela presidência da Fiocruz para tratar do surto quanto por outros grupos de cientistas interessados em outras instituições espalhadas pelo planeta.

"Ainda precisamos mapear qual a importância de fato destas mudanças", destaca Myrna. — Estas mutações não implicam necessariamente em uma maior agressividade do vírus e tanto podem ajudar quanto podem atrapalhar a infecção. Vamos estudar isso.

Neste sentido, primeiro os pesquisadores da Fiocruz vão analisar o grau de dispersão desta nova versão do vírus no país, isto é, o quanto ele se espalhou pelas várias regiões atingidas pela mais recente epizootia (epidemia nos animais) e o surto em humanos. Para tanto, eles já estão fazendo o sequenciamento genético de mais amostras colhidas de mosquitos infectados na natureza, outros macacos mortos e pacientes nos estados de Minas, Espírito Santo e Rio, trabalho que deve ficar pronto dentro de um mês. As perguntas sobre os impactos das mutações no comportamento do micro-organismo, no entanto, ainda não têm prazo para serem respondidas.

"Vamos começar agora estes estudos", conta Ricardo Lourenço, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC e outro coordenador do grupo de pesquisas sobre a febre amarela da Fiocruz. — No momento estamos isolando o vírus para replicá-lo e criar uma massa viral para ser usada nestes experimentos todos.

Um exemplo destes possíveis impactos que Lourenço pretende investigar é se com as mutações o vírus se tornou mais capaz de infectar seus vetores urbanos, os mosquitos das espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus, o que aumentaria o risco de um dos maiores pesadelos das autoridades sanitárias e de saúde, que é o surto começar a se espalhar por grandes cidades do país.

"Temos que verificar também se as alterações facilitam a infecção pelo vírus de outros mosquitos do gênero Aedes silvestres em nosso continente e que podem fazer a ponte entre o ciclo da doença na floresta, onde mata macacos, para o ciclo nas zonas rurais, onde começa a atingir humanos, e o ambiente urbano ", acrescenta Lourenço. — Outras questões são saber se elas afetam a proporção de mosquitos capaz de transmitir a doença e a rapidez e quantidade de partículas virais que chegam na saliva dos insetos.


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